Estreando a série de posts sobre os seres que saíram das páginas dos livros para tomarem conta do nosso imaginário, eu vos apresento os dançarinos de Michael Jackson. Mortos-vivos! Cadáveres ambulantes! Mastigadores em decomposição!
Enfim, esse é o nosso dossiê literário sobre zumbis.
“Outros monstros podem ameaçar humanos individuais, mas os mortos vivos ameaçam toda a raça humana …. Zumbis são os limpadores de ardósia.” Max Brooks
ORIGEM
Bem antes do eterno Rei do Pop inspirar o mundo a imitar os passinhos de Thriller, ou da marcha arrastada dos mortos-vivos nos filmes de George A. Romero ganharem as telonas, os zumbis já estavam por aí. E não apenas no sentido figurado – mortos reanimados são reais para muita gente.
De acordo com o folclore haitiano, um feiticeiro é perfeitamente capaz de trazer uma pessoa do túmulo. Claro que, para isso, há todo um ritual envolvido. O feiticeiro, ou bokor, precisa fornecer uma poção venenosa à pessoa que será dada como morta e enterrada. Algum tempo depois, o feiticeiro desenterraria a vítima e reclamaria controle sobre o corpo, que passaria a obedecê-lo cegamente, sem consciência própria. Esses zumbis haitianos não dão a mínima para devorar cérebros alheios. O conceito era fazer um cadáver de marionete - o que não deixa de ser assustador. Segundo os haitianos, para livrar o zumbi dos comandos do bokor e levá-lo de volta à cova era preciso alimentá-lo com sal.
Tal lenda atraiu a curiosidade científica de um certo etnobotânico de Harvard chamado Wade Davis. Na década de 80, Davis viajou até o Haiti para tentar descobrir o quanto de verdade havia por trás desse burburinho. Dois livros bem controversos nasceram ali.
Em A Serpente e o Arco-Íris (1985) e Passagem das Trevas: A Etnobiologia do Zumbi do Haiti (1988), Davis afirma que os feiticeiros destruíam as funções motoras e o raciocínio lógico do ser humano através da injeção diretamente na corrente sanguínea de toxinas extraídas de peixes e moluscos. As pessoas submetidas ao envenenamento entrariam em um condição inicial de morte, parecido com animação suspensa, despertando em estado psicótico que as levariam a acreditar que estavam efetivamente mortas. Para Davis, a forte crença popular serviria para empurrar a vítima para sua “condição de zumbi”, acarretando em comportamento deprimido e hábitos viciosos (como passear em cemitérios e outras esquisitices supostamente características do cotidiano de um zumbi despertado).
A comunidade científica considera esse estudo tendencioso e crédulo demais para ser levado a sério. O envenenamento pelas substâncias sugeridas por Davis tem entre seus sintomas: enrijecimento dos membros, dormência, náuseas e pode levar uma pessoa à morte – mas nada que explique o comportamento característico de um morto-vivo ou o suposto controle mental exercido pelo feiticeiro.
Aprovada cientificamente ou não, essa lenda afro-caribenha é considerada a inspiração ancestral para os pútridos mastigadores de cérebro.
PRIMEIROS LIVROS
Seria Frankenstein o primeiro livro de um zumbi? Em minhas pesquisas para escrever este humilde post, percebi que muita gente encara como marco zero da história literária de mortos-vivos o romance escrito pela britânica Mary Shelley no início do século XIX. Eu penso diferente. A criatura do Dr. Victor Frankenstein é composta por partes de diversos cadáveres, não um defunto revivido. O princípio de um zumbi não é o de alguém que atravessou a fronteira da morte e voltou? Pois bem. O monstro feito de um catadão do cemitério jamais tinha experimentado a vida antes, e não passou por nenhum processo de transformação para se tornar um zumbi.
O primeiro livro que se atreveu a relatar a existência de zumbis foi publicado nos primórdios do século XX, pelo antropólogo grego Lafcadio Hearn. Em O País dos que Voltam, Hearn descreve vagamente a lenda haitiana sobre os zumbis. Porém, a obra que veio a se tornar a verdadeira apresentação dos zumbis ao mundo ocidental veio a público em 1929 sob o título de A Ilha da Magia. Após ler o livro de Hearn, o jornalista americano William Seabrook viajou até a “terra dos mortos viventes” e escreveu sua narração sensacionalista sobre o grupo de trabalhadores despertados da morte por um feiticeiro vodu para servirem nas fazendas cafeeiras. Para esses haitianos azarados a morte deixou de ser descanso eterno para se tornar lavoura eterna. Até que a mulher do feiticeiro resolve comemorar o feriado de Corpus Christi sendo boazinha, dando doces aos zumbis escravizados por seu marido. O alimento desperta os infelizes do transe por tempo o suficiente para voltarem às suas covas e tombarem de uma vez por todas. O final do feiticeiro é ser massacrado pelos familiares de suas vítimas, entretanto o feitiço de atração pelos mortos-vivos já estava lançado sobre o mundo da literatura.
LEIA ZUMBIS!
Por volta de 1930, HP Lovecraft, venerado autor de terror, escreveu romances explorando os mortos-vivos. Entre eles, o memorável
Na Vault, no qual um zumbi assume as características de devorador ao morder outro
personagem, e o popular Hebert West – Reanimator (que rendeu adaptação livre para o filme ainda mais popular).
Stephen King, o rei das histórias modernas de terror, também se rendeu ao apelo
dos zumbis. Para King, O Cemitério ressuscita entes queridos, mas os traz como
versões psicopatas e demoníacas de si mesmos. Já a trama de Celular mostra
sinais de telefonia móvel transformando pessoas normais em irracionais zumbis
assassinos.


The Walking Dead, que já era um grande sucesso como HQ e série de TV, agora
invade também as livrarias com seu primeiro livro, A Ascensão do Governador. Os autores Robert Kirkman e Hay Bonansinga trazem
ao leitor uma trilogia separada da HQ, com história independente protagonizada
pelo Governador que comanda a Woodbury pós-apocalíptica.
O inimigo, de Charlie Higson, mostra a
infestação zumbi em Londres. Contudo, apenas pessoas maiores de 16 anos são
afetadas. A criançada que resta precisa se unir para tentar sobreviver.
Em Mar Morto, escrito por Briane Keene, os ratos não transmitem só as doenças nojentas
que nós já conhecemos. Eles são os disseminadores da praga zumbi que transforma
humanos em devoradores irracionais de carne viva.
O roteiro criado por
Paul W. S. Anderson para o
quinto filme da ilustre franquia Resident Evil foi transformado em romance pelo
escritor John Shirley. Resident Evil: Retribuição é a guerra já
conhecida contra a Umbrella Corporation – só que o trabalho de imaginar a Milla
Jovovich barbarizando os zumbis fica por conta da sua imaginação.
Para os pequeninos aprenderem a se virar no caso de um Apocalipse Zumbi, temos
o didático That's not Your Mommy Anymore (sem versão em português), de Matt
Mogk. Alguém tinha que pensar na educação das crianças! Ufa!
Um dos mestres da literatura brasileira,
Érico Veríssimo, usou o tema dos mortos-vivos para fazer uma inteligente crítica
social em Incidente em Antares. No livro, uma greve de coveiros impede a
realização de enterros na cidade de Antares por vários dias. Cansados de
esperar pelo serviço, os mortos se levantam e vão atrás de seus problemas mal
resolvidos em vida. Esse eu li e recomendo para todos os leitores exigentes - fãs de zumbis ou não.
Nenhum autor conseguiu despertar tanto
interesse quanto revolta nos amantes de desmortos do que Isaac Marion. No livro
Sangue Quente, o zumbi R não só é capaz de tecer linhas de raciocínio enquanto
devora seres vivos, como também de se apaixonar. Há quem diga que a história é
apenas uma jogada para aproveitar o sucesso de romances adolescentes com
monstros “adocicados” (como Crepúsculo, é claro). Uma coisa é certa: esse livro
vendeu pra burro e já está com adaptação cinematográfica no forno.
O Guia de Sobrevivência a Zumbis: Protocolo
Bluehand é a versão brasileiríssima de uma enciclopédia para superar um
eventual Apocalipse Zumbi por essas bandas. Escrito pela dupla Deive
Pazos e Alexandre Ottoni, do site Jovem Nerd, a ideia do livro surgiu na
brincadeira durante as gravações do podcast.

Prometendo ser um guia completo e recheado de
ilustrações nada agradáveis aos olhos, Zumbi: O Livro dos Mortos chegou às
livrarias. O autor e jornalista Jamie Russel acompanha a evolução dos zumbis no
mundo do cinema, com direito a uma extensa lista de obras cinematográficas
protagonizadas por eles.
Pra quem prega que o universo dos mortos-vivos é o cinema, estão aí boas dicas para encher sua estante com provas do contrário. Zumbis estão em alta, e a influência deles no mundo da literatura inspirou histórias para todos os gostos.
Boa leitura e até a próxima Zombie Walk!
2 comentários:
Aain credo rsrs, muito legais !
Eu quero ler sangue quente, estou muito curiosa ( o crepusculo de zumbis kkk).
Gosto dos zumbis, são quase favoritas, só perdem para algumas criaturas que estão na frente do que eu gosto.
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