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Eu ♥ Especiais: Criaturas Fantásticas - Zumbis
Marcadores: Especial, Eu ♥ Especiais, Literatura Brasileira, Literatura Estrangeira, Literatura Fantástica, O Guia de Sobrevivência a Zumbis, ZumbisEstreando a série de posts sobre os seres que saíram das páginas dos livros para tomarem conta do nosso imaginário, eu vos apresento os dançarinos de Michael Jackson. Mortos-vivos! Cadáveres ambulantes! Mastigadores em decomposição!
Enfim, esse é o nosso dossiê literário sobre zumbis.
“Outros monstros podem ameaçar humanos individuais, mas os mortos vivos ameaçam toda a raça humana …. Zumbis são os limpadores de ardósia.” Max Brooks
ORIGEM
Bem antes do eterno Rei do Pop inspirar o mundo a imitar os passinhos de Thriller, ou da marcha arrastada dos mortos-vivos nos filmes de George A. Romero ganharem as telonas, os zumbis já estavam por aí. E não apenas no sentido figurado – mortos reanimados são reais para muita gente.
De acordo com o folclore haitiano, um feiticeiro é perfeitamente capaz de trazer uma pessoa do túmulo. Claro que, para isso, há todo um ritual envolvido. O feiticeiro, ou bokor, precisa fornecer uma poção venenosa à pessoa que será dada como morta e enterrada. Algum tempo depois, o feiticeiro desenterraria a vítima e reclamaria controle sobre o corpo, que passaria a obedecê-lo cegamente, sem consciência própria. Esses zumbis haitianos não dão a mínima para devorar cérebros alheios. O conceito era fazer um cadáver de marionete - o que não deixa de ser assustador. Segundo os haitianos, para livrar o zumbi dos comandos do bokor e levá-lo de volta à cova era preciso alimentá-lo com sal.
Tal lenda atraiu a curiosidade científica de um certo etnobotânico de Harvard chamado Wade Davis. Na década de 80, Davis viajou até o Haiti para tentar descobrir o quanto de verdade havia por trás desse burburinho. Dois livros bem controversos nasceram ali.
Em A Serpente e o Arco-Íris (1985) e Passagem das Trevas: A Etnobiologia do Zumbi do Haiti (1988), Davis afirma que os feiticeiros destruíam as funções motoras e o raciocínio lógico do ser humano através da injeção diretamente na corrente sanguínea de toxinas extraídas de peixes e moluscos. As pessoas submetidas ao envenenamento entrariam em um condição inicial de morte, parecido com animação suspensa, despertando em estado psicótico que as levariam a acreditar que estavam efetivamente mortas. Para Davis, a forte crença popular serviria para empurrar a vítima para sua “condição de zumbi”, acarretando em comportamento deprimido e hábitos viciosos (como passear em cemitérios e outras esquisitices supostamente características do cotidiano de um zumbi despertado).
A comunidade científica considera esse estudo tendencioso e crédulo demais para ser levado a sério. O envenenamento pelas substâncias sugeridas por Davis tem entre seus sintomas: enrijecimento dos membros, dormência, náuseas e pode levar uma pessoa à morte – mas nada que explique o comportamento característico de um morto-vivo ou o suposto controle mental exercido pelo feiticeiro.
Aprovada cientificamente ou não, essa lenda afro-caribenha é considerada a inspiração ancestral para os pútridos mastigadores de cérebro.
PRIMEIROS LIVROS
Seria Frankenstein o primeiro livro de um zumbi? Em minhas pesquisas para escrever este humilde post, percebi que muita gente encara como marco zero da história literária de mortos-vivos o romance escrito pela britânica Mary Shelley no início do século XIX. Eu penso diferente. A criatura do Dr. Victor Frankenstein é composta por partes de diversos cadáveres, não um defunto revivido. O princípio de um zumbi não é o de alguém que atravessou a fronteira da morte e voltou? Pois bem. O monstro feito de um catadão do cemitério jamais tinha experimentado a vida antes, e não passou por nenhum processo de transformação para se tornar um zumbi.
O primeiro livro que se atreveu a relatar a existência de zumbis foi publicado nos primórdios do século XX, pelo antropólogo grego Lafcadio Hearn. Em O País dos que Voltam, Hearn descreve vagamente a lenda haitiana sobre os zumbis. Porém, a obra que veio a se tornar a verdadeira apresentação dos zumbis ao mundo ocidental veio a público em 1929 sob o título de A Ilha da Magia. Após ler o livro de Hearn, o jornalista americano William Seabrook viajou até a “terra dos mortos viventes” e escreveu sua narração sensacionalista sobre o grupo de trabalhadores despertados da morte por um feiticeiro vodu para servirem nas fazendas cafeeiras. Para esses haitianos azarados a morte deixou de ser descanso eterno para se tornar lavoura eterna. Até que a mulher do feiticeiro resolve comemorar o feriado de Corpus Christi sendo boazinha, dando doces aos zumbis escravizados por seu marido. O alimento desperta os infelizes do transe por tempo o suficiente para voltarem às suas covas e tombarem de uma vez por todas. O final do feiticeiro é ser massacrado pelos familiares de suas vítimas, entretanto o feitiço de atração pelos mortos-vivos já estava lançado sobre o mundo da literatura.
LEIA ZUMBIS!
Por volta de 1930, HP Lovecraft, venerado autor de terror, escreveu romances explorando os mortos-vivos. Entre eles, o memorável
Na Vault, no qual um zumbi assume as características de devorador ao morder outro
personagem, e o popular Hebert West – Reanimator (que rendeu adaptação livre para o filme ainda mais popular).
Stephen King, o rei das histórias modernas de terror, também se rendeu ao apelo
dos zumbis. Para King, O Cemitério ressuscita entes queridos, mas os traz como
versões psicopatas e demoníacas de si mesmos. Já a trama de Celular mostra
sinais de telefonia móvel transformando pessoas normais em irracionais zumbis
assassinos.
Max Brooks é considerado o especialista
supremo da literatura de zumbis. O Guia de Sobrevivência a Zumbis prepara o
leitor para a futura contaminação mundial de forma completa – estudando desde a
fisiologia dos monstros até a escolha de armas para combatê-los. Na sequência,
Guerra Mundial Z, o narrador entrevista sobreviventes ao Apocalipse Zumbi que
quase extinguiu a humanidade. O livro usa da fantasia para comentar as reações
humanas em situações extremas e criticar problemas da organização social atual.
Best-seller instantâneo.
The Walking Dead, que já era um grande sucesso como HQ e série de TV, agora
invade também as livrarias com seu primeiro livro, A Ascensão do Governador. Os autores Robert Kirkman e Hay Bonansinga trazem
ao leitor uma trilogia separada da HQ, com história independente protagonizada
pelo Governador que comanda a Woodbury pós-apocalíptica.
O inimigo, de Charlie Higson, mostra a
infestação zumbi em Londres. Contudo, apenas pessoas maiores de 16 anos são
afetadas. A criançada que resta precisa se unir para tentar sobreviver.
Em Mar Morto, escrito por Briane Keene, os ratos não transmitem só as doenças nojentas
que nós já conhecemos. Eles são os disseminadores da praga zumbi que transforma
humanos em devoradores irracionais de carne viva.
O roteiro criado por
Paul W. S. Anderson para o
quinto filme da ilustre franquia Resident Evil foi transformado em romance pelo
escritor John Shirley. Resident Evil: Retribuição é a guerra já
conhecida contra a Umbrella Corporation – só que o trabalho de imaginar a Milla
Jovovich barbarizando os zumbis fica por conta da sua imaginação.
Para os pequeninos aprenderem a se virar no caso de um Apocalipse Zumbi, temos
o didático That's not Your Mommy Anymore (sem versão em português), de Matt
Mogk. Alguém tinha que pensar na educação das crianças! Ufa!
Um dos mestres da literatura brasileira,
Érico Veríssimo, usou o tema dos mortos-vivos para fazer uma inteligente crítica
social em Incidente em Antares. No livro, uma greve de coveiros impede a
realização de enterros na cidade de Antares por vários dias. Cansados de
esperar pelo serviço, os mortos se levantam e vão atrás de seus problemas mal
resolvidos em vida. Esse eu li e recomendo para todos os leitores exigentes - fãs de zumbis ou não.
Nenhum autor conseguiu despertar tanto
interesse quanto revolta nos amantes de desmortos do que Isaac Marion. No livro
Sangue Quente, o zumbi R não só é capaz de tecer linhas de raciocínio enquanto
devora seres vivos, como também de se apaixonar. Há quem diga que a história é
apenas uma jogada para aproveitar o sucesso de romances adolescentes com
monstros “adocicados” (como Crepúsculo, é claro). Uma coisa é certa: esse livro
vendeu pra burro e já está com adaptação cinematográfica no forno.
O Guia de Sobrevivência a Zumbis: Protocolo
Bluehand é a versão brasileiríssima de uma enciclopédia para superar um
eventual Apocalipse Zumbi por essas bandas. Escrito pela dupla Deive
Pazos e Alexandre Ottoni, do site Jovem Nerd, a ideia do livro surgiu na
brincadeira durante as gravações do podcast.
Mashups com obras clássicas se multiplicaram
no mercado literário recentemente. O mais popular deles é a versão de Seth
Grahame-Smith do romance Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Nessa
releitura, a corajosa Elizabeth Bennett, treinada em artes marciais, combate
uma misteriosa doença que afeta a Inglaterra do século XIX, trazendo os mortos
de volta à vida devorando cérebros. Claro que o orgulhoso Sr. Darcy aparece
para desconcentrá-la. Nem o clássico brasileiro Memórias Póstumas de Brás Cubas
escapou de ganhar sua versão trash: Memórias Desmortas de Brás Cubas. Escrito
por Pedro Vieira, o livro mostra a “continuação” da história de Brás Cubas, que
se levanta do caixão para aterrorizar o Rio de Janeiro.
Prometendo ser um guia completo e recheado de
ilustrações nada agradáveis aos olhos, Zumbi: O Livro dos Mortos chegou às
livrarias. O autor e jornalista Jamie Russel acompanha a evolução dos zumbis no
mundo do cinema, com direito a uma extensa lista de obras cinematográficas
protagonizadas por eles.
Pra quem prega que o universo dos mortos-vivos é o cinema, estão aí boas dicas para encher sua estante com provas do contrário. Zumbis estão em alta, e a influência deles no mundo da literatura inspirou histórias para todos os gostos.
Boa leitura e até a próxima Zombie Walk!
Eu ♥ Resenhas: O Livro das Religiões
Marcadores: Didático, Eu ♥ Resenhas, Henry Notaker, Jostein Gaarder, Literatura Estrangeira, Religião, Resenha, Victor Hellern
Autores: Jostein Gaarder, Victor Hellern,
Henry Notaker (Apêndice por Antônio Flávio Pierucci
Ano:
2005
Número de Páginas:
323
Editora:
Companhia de Bolso
Edição:
1ª
“Um rápido olhar para o mundo ao redor
mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida social
e política de todas as partes do globo. Ouvimos falar de católicos e
protestantes em conflito na Irlanda do Norte, cristãos contra mulçumanos nos
Bálcãs, atrito entre mulçumanos e hinduístas na Índia, guerra entre hinduístas
e budistas no Sri Lanka. Nos Estados Unidos e no Japão há seitas religiosas
extremistas que já praticaram atos de terrorismo. Ao mesmo tempo,
representantes de diversas religiões promovem ajuda humanitária aos pobres e
destituídos do Terceiro Mundo. É difícil adquirir uma compreensão adequada da
política internacional sem que se esteja consciente do fator religião.”
Não importa onde você mora, em que acredita ou se participa
de alguma comunidade religiosa. Como o trecho acima do excelente O Livro das
Religiões deixa bem claro, nem eu e nem você podemos escapar desse tema polêmico,
pois sua influência moldou a história da humanidade. E o objetivo dessa obra é justamente ajudar o leitor na difícil
missão de entender a complexa teia de crenças que compõe as principais religiões
praticadas pelo mundo todo.
O Livro das Religiões foi escrito em parceria por três
noruegueses, e a versão brasileira foi a primeira tradução feita do idioma
original. Jostein Gaarder é conhecido do público pelo grande sucesso de O Mundo
de Sofia – se você já teve oportunidade de ler essa obra, perceberá a
semelhança no estilo de escrita de O Livro das Religiões. Victor Hellern é
historiador e teólogo. Henry Notaker é jornalista, especializado em política
exterior, com correspondências no Leste Europeu e Espanha no currículo. Esse
time ainda teve o reforço do cientista social Antônio Flávio Pierucci, que
escreveu um apêndice sobre as religiões no Brasil especialmente para a edição
tupiniquim. Se algum livro pode ser considerado uma enciclopédia de bolso para
desvendar as diferentes crenças da humanidade, é esse aqui.
A introdução do livro abrange a importância da religião na
formação do homem com tópicos como “Será que precisamos de uma filosofia de
vida?”. Logo depois, no capítulo “Conhecimento religioso” os autores apresentam
de forma bem didática os conceitos de rito, sagrado, sacrifícios e várias
outras questões inerentes a qualquer religião, preparando o leitor para iniciar
a parte verdadeiramente interessante – as
diversas religiões descritas pelos autores.
O texto é simples, direto e imparcial. Não prega nada,
apenas informa. Dividido entre religiões orientais e ocidentais, os autores
resumiram habilmente desde o Hinduísmo até o Cristianismo (incluindo as
diferentes interpretações desse último, como a Igreja Católica Apostólica
Romana, a Igreja Católica Ortodoxa, a Igreja Batista, Adventista, e etc). Vale
apontar que as informações sobre religiões orientais e africanas parecem mais
resumidas do que as ocidentais, principalmente por se tratar de crenças tão
antigas, detalhistas e complexas. Eu fiquei satisfeita com a apresentação de
algumas religiões das quais eu tinha ideias totalmente equivocadas, mas também
com curiosidade suficiente para procurar um texto se aprofundasse mais no
assunto – principalmente no Xintoísmo e Taoísmo.
A maior surpresa do livro, e também meu capítulo favorito,
encontrei em “Filosofias de vida não religiosas”. Não esperava que os autores
fossem falar sobre Humanismo, Ateísmo e até Ufologia! O livro não se abstém de
levantar questões como “Convicção ou lavagem cerebral?” ao falar sobre seitas
como as que levam fiéis a cometer suicídio coletivo, e encerra refletindo sobre
a ética como guia de conduta.
No apêndice brasileiro, o Candomblé, a Ubanda, a
diversidade de igrejas cristãs e o Kardecismo entram em cena como elementos da
formação religiosa do Brasil. Se você é daqueles que só de olhar uma oferenda
para Iemanjá sai dizendo que é macumba, recomendo sinceramente prestar atenção
nesse apêndice e desconstruir alguns preconceitos.
Nem precisa dizer que eu adorei o livro, não é? É uma leitura instrutiva, se você estiver inspirado a abrir a cabeça pra diferentes perspectivas de vida. Não é um mergulho emotivo no mundo das palavras, é um exercício de reflexão. Algumas pessoas acham esse tipo de coisa maçante, mas eu consegui verdadeiramente me distrair com o texto.
Ao passar pela última página de O Livro das Religiões, senti que era uma obrigação moral trazê-lo aqui pro blog.
Nem precisa dizer que eu adorei o livro, não é? É uma leitura instrutiva, se você estiver inspirado a abrir a cabeça pra diferentes perspectivas de vida. Não é um mergulho emotivo no mundo das palavras, é um exercício de reflexão. Algumas pessoas acham esse tipo de coisa maçante, mas eu consegui verdadeiramente me distrair com o texto.
Ao passar pela última página de O Livro das Religiões, senti que era uma obrigação moral trazê-lo aqui pro blog.
Talvez uma pequena dose de
conhecimento como essa possa ser o primeiro passo para viver num mundo mais
tolerante.
Eu ♥ Resenhas: Jogos Vorazes
Marcadores: Eu ♥ Resenhas, Jogos Vorazes, Literatura Estrangeira, Literatura Fantástica, Resenha, Suzanne CollinsTítulo Original: Hunger Games
Autora: Suzanne Collins
Ano: 2010
Número de Páginas: 397
Editora: Rocco
Edição: 1ª
“Se pudesse escolher, tentaria esquecer por completo os Jogos Vorazes. Jamais falaria neles. Fingiria que não eram nada além de um sonho ruim.”
A heroína Katniss pode até tentar esquecer suas aventuras, mas eu estou aqui para apresentá-las a você, caro leitor.
Escrito pela americana Suzanne Collins, Jogos Vorazes se passa no cenário mais violento que já encontrei em uma saga dirigida ao público jovem.
Em um futuro pós-apocalíptico, o mundo como o conhecemos está devastado. A América do Norte se transformou em Panem, o continente onde os seres humanos aprenderam a sobreviver e a reconstruir uma sociedade.
Panem se divide em um estado administrativo que exerce o poder, a Capital, e mais 13 territórios, chamados Distritos, onde cada um tem a responsabilidade de suprir certo tipo de necessidade dos habitantes da Capital. Dessa forma, o Distrito 1 se encarrega de manufaturar produtos de luxo, o Distrito 4 é responsável pela pesca, o Distrito 8 abriga toda a indústria têxtil e assim por diante. Obviamente, a ditadura da Capital sobre os Distritos não era motivo de felicidade em Panem, e em certo momento do desenvolvimento desse novo mundo houve uma guerra sanguinária por independência e igualdade entre os territórios. A Capital esmagou a revolta, dizimou o Distrito 13, e, para garantir que os Distritos jamais esqueceriam as consequências de desafiar os governantes, criou o evento que dá nome à trilogia, Jogos Vorazes.
Anualmente, um menino e uma menina de idade entre 12 e 18 anos são retirados de seu Distrito de origem e levados para a Capital, onde uma arena especial está à espera deles. Os vinte e quatro adolescentes que adentram a arena - os tributos dos Distritos - precisam matar uns aos outros, uma vez que é permitido apenas um sobrevivente para cada edição da disputa. Toda a Panem é forçada a assistir aos tributos se combatendo, pois o controle que a Capital exerce sobre a mídia faz dos Jogos Vorazes a programação obrigatória. O vencedor dos Jogos conquista riqueza vitalícia e presentes para aliviar as condições de vida dos compatriotas de seu Distrito. Para conquistar o prêmio, o preço a se pagar é o sangue dos vinte e três derrotados, além do medo constante que assombra as famílias dos Distritos entre uma edição dos Jogos Vorazes e a próxima.
Nesse universo sombrio, encontramos Katniss Everdeen, a protagonista de dezesseis anos que reside no Distrito 12, o mais pobre território de Panem e responsável pela mineração. Desde a morte prematura do pai em um acidente nas minas, ela é responsável pelo sustento de uma mãe em estado de profunda depressão e da irmã de doze anos. Para cumprir o posto de chefe de família, Katniss caça ilegalmente na companhia do melhor amigo, Gale Hawthorne, e vive com a preocupação diária de colocar comida na mesa. Não é uma vida fácil para uma garota tão jovem, mas o que já está ruim sempre pode piorar. Sorte não é exatamente o forte da família Everdeen, então a colheita de tributos para o 74º Jogos Vorazes anuncia o nome Primrose Everdeen como representante do Distrito 12. Para salvar a irmã do combate nos Jogos, Katniss se oferece como tributo em seu lugar. O tributo masculino sorteado é Peeta Mellark, um filho de padeiro que, no passado, salvou Katniss da fome. Apesar do intenso sentimento de dívida que sente por ele, Katniss sabe que a única maneira de voltar para casa inclui matar seu companheiro de Distrito e mais vinte e dois jovens tributos.
“-Katniss, a coisa não passa de uma caçada. Você é a melhor caçadora que conheço.
-Não é só caçada. Eles estão armados. Eles usam a cabeça.
-Assim como você. E você tem mais experiência. Experiência real. Você sabe como matar.
-Não pessoas.
-E que diferença pode ter? – indaga Gale, de modo sinistro.”
A partir de então, Katniss se despede da sua antiga vida no Distrito 12 e é levada para a Capital, iniciando suas preparações para os Jogos Vorazes, período em que recebe treinamento do sempre bêbado e ao mesmo tempo grande estrategista, Haymitch – um dos personagens mais surpreendentes da saga, é o tipo de mentor que ninguém gostaria de ter. Katniss conhece também a extravagância da Capital, personificada pela colorida Effie Trinket – perucas rosas exageradas foram sucesso no último Halloween americano! Cinna, o estilista responsável pelas apresentações públicas da tributo, cumpre o papel de aliado confiável e ajuda o leitor a entender o simbolismo dos Jogos Vorazes. Essa fase também mostra a perspectiva da Capital, que acompanha os Jogos Vorazes como um reality show especialmente emocionante, indiferente ao sofrimento que o evento causa. É interessante perceber que a autora critica diretamente esse tipo de entretenimento, e usa bastante o termo “pão e circo” para descrever a estratégia do governo para manter o povo alienado através de diversão barata.
Quando os Jogos Vorazes começam, a ação não deixa nada a desejar. O livro é narrado em primeira pessoa, e é impossível não sentir a adrenalina de Katniss enquanto a garota corre por uma floresta cheia de armadilhas e inimigos. A descrição dos cenários é impecável, e o ritmo da história é constante e envolvente, prendendo o leitor às páginas do livro da mesma forma que o público de Panem gruda na TV para acompanhar os Jogos Vorazes.
Romance? Estou falando de uma trilogia protagonizada por adolescentes! É claro que esse é um elemento presente na trama, visto que Katniss e Peeta assumem publicamente um namoro inexistente - estratégia de Haymitch para justificar a temporária parceria entre eles dentro da arena, e assim conseguir mais pontos de simpatia com o povo da Capital. O desenvolvimento do casal não é forçado e se torna até um dos melhores conflitos da história, já que Peeta claramente está mais a vontade com as encenações do que Katniss se permite imaginar. O casal é tão carismático que até o insensível público da Capital se comove com o destino trágico dos adolescentes guerreiros. Katniss e Peeta se tornam os queridinhos da audiência, e ao longo do evento a indisposição de ambos em seguir as regras impostas pelos idealizadores dos Jogos leva um novo sopro de rebeldia aos desmoralizados Distritos nos quatro cantos de Panem.
É claro que não vou estragar a festa revelando o desfecho da competição.
Só me arrisco a dizer que o final da 74º edição dos Jogos Vorazes é emocionante, e abre caminho para o segundo livro da saga, quando os Distritos inspirados pelas ações de Katniss e Peeta começam a se reerguer para a luta por justiça.
“Katniss Everdeen, a garota em chamas, você acendeu uma fagulha que, se não for contida, pode crescer e se transformar num inferno que destruirá Panem.”
Jogos Vorazes é um livro escrito com linguagem simples de forma habilidosa.
Cumpre a função de toda saga fantástica: divertir até a última página - trazendo o bônus de ser capaz de inspirar reflexões sobre alguns problemas bem atuais.
Qual é o Jogos Vorazes que anestesia nossa rebeldia?
Para quem ainda não sabe, o primeiro livro da trilogia já virou filme. O roteiro, como sempre, não explicou todas as circunstâncias que levou ao Jogos Vorazes, e as ponderações morais dos personagens ficaram perdidas nas páginas do livro, mas... Vale a pena! Os cenários e caracterizações estão impecáveis, assim como as sequências de ação na arena. Confira o trailer para entrar no clima:
E que a sorte esteja sempre a seu favor!
Eu♥Resenhas: Hell Paris
Marcadores: Eu ♥ Resenhas, Hell Paris, Literatura Estrangeira, Lolita Pille, Resenha
Título Original: "Hell Paris 75016".
Autor: Lolita Pille.
Ano: 2001.
Ano: 2001.
Número de Páginas: 205 páginas.
Editora: Itrínseca.
Edição: 1ª Edição.
Com uma escrita violenta e sem rodeios, Lolita Pille nos conduz pelo mundo de Hell - nome adotado pela personagem - e nos faz nos perdermos em meio a maneira leviana que a personagem vive.
Hell Paris 75016 nos traz, como numa espécie de diário, o dia-a-dia dos ricos jovens parisienses. Vivendo sempre sem limites e sem objetivos. Afinal, o que mais se pode querer quando se já tem tudo, não é? O livro trata muito disso. O vazio que a própria Hell e Andrea sentem, da falta de objetivos e de amor.
Hell, apesar de relutar bastante, é uma personagem bastante romântica. Nós conseguimos perceber isso pela forma como ela lida com o amor. Chegando até preferir o platônico ao real em certa parte do livro.
Durante o livro encontramos diversas reflexões a respeito da vida e de sentimentos tão pessoais que só segredaríamos a um diário trancado a sete chaves. Nas primeiras linhas temos uma Hell que se introduz como uma putinha das mais insuportáveis, sendo fútil por opção e adorando isso. Hell tem como prazer culposo o hábito de sair todas as noites, comprar roupas e acessórios que sabe que nunca irá usar e a cocaína. E mesmo se odiando por sempre fazer todas as noites iguais as anteriores, terminando sempre ao lado de pessoas que ela absolutamente não se importa, ela acaba sempre fazendo as mesmas coisas de novo e de novo. Até que então ela encontra Andrea, sua alma gêmea se é que podemos chamá-lo assim. É como se quando eles estão juntos, eles acham algo que vale à pena viver. Como se os dias parassem de se repetir e eles finalmente pudessem se libertar dos demônios interiores que perturbam tanto suas mentes e inquieta seus corações. Mas demônios nunca abandonam uma alma, não é? Com eles não é diferente.
Apesar de haver ótimos pontos na história, a escrita de Lolita prejudica bastante no decorrer do enredo. Há muitas passagens confusas e um tanto cansativas. A história demora a engrenar. Não sei se houve um problema com a tradução ou se o livro é assim naturalmente, uma vez que eu não sou fluente em francês (mal arranho o básico pra falar a verdade), por isso não posso afirmar nada. A pontuação também é um pouco precária. Para mim que estava bastante ansiosa com a leitura de Hell, o livro foi um pouco decepcionante, devo confessar, mas ainda assim é uma leitura válida já que traz algumas reflexões bastante interessantes. Alguns quotes eu vou trazer num próximo post, acho mais apropriado. Por enquanto é só.
Eu♥Resenhas: A Menina Morta-Viva
Marcadores: A Menina Morta Viva, Editora Underworld, Elizabeth Scott, Literatura Estrangeira, Ótimo
Número de Páginas: 172 páginas.
Editora: Editora Underworld.
Edição: 1ª edição.
Tradução: Ronaldo Passarinho.
Falar desse livro é complicado pra mim. Porque eu o comprei na bienal do Rio de Janeiro no ano passado e protelei a leitura por bastante tempo e quando consegui terminá-lo foi um grande alívio. O alívio não é pela qualidade do livro, ao contrário, o livro é ótimo no que tange o tema abordado, tão bom que machuca quem lê. "A Menina Morta-Viva" traz uma história para leitores fortes. Algumas partes são tão cruéis e vis que eu me senti sufocada e me fez segurar as lágrimas em algumas passagens. A dor de Alice acaba se tornando nossa porque há partes em que a autora coloca "em xeque" nossas atitudes. Afinal, quantas vezes podemos esbarrar em Alices por aí e nem ao menos reparamos? Alice nos fala isso em várias páginas e, da mesma forma que soa como um apelo, ao mesmo tempo ela soa conformada em ninguém reparar seu sofrimento.
Era uma vez, eu era uma menininha que desapareceu. Era uma vez, o meu nome não era Alice. Era uma vez, eu não sabia como tinha sorte. Quando Alice tinha dez anos, Ray levou-a de sua família, seus amigos ― a sua vida. Ela aprendeu a desistir de todo o poder, para suportar toda a dor. Ela esperou que o pesadelo acabasse. Alice agora tem quinze e Ray ainda a tem, mas ele fala mais e mais da sua morte. Ele não sabe é o que ela anseia. Ela não sabe que ele tem algo mais assustador do que a morte em mente para ela. Esta é a história de Alice. É uma que você nunca ouviu falar, e que você nunca, jamais esquecerá.
Falar desse livro é complicado pra mim. Porque eu o comprei na bienal do Rio de Janeiro no ano passado e protelei a leitura por bastante tempo e quando consegui terminá-lo foi um grande alívio. O alívio não é pela qualidade do livro, ao contrário, o livro é ótimo no que tange o tema abordado, tão bom que machuca quem lê. "A Menina Morta-Viva" traz uma história para leitores fortes. Algumas partes são tão cruéis e vis que eu me senti sufocada e me fez segurar as lágrimas em algumas passagens. A dor de Alice acaba se tornando nossa porque há partes em que a autora coloca "em xeque" nossas atitudes. Afinal, quantas vezes podemos esbarrar em Alices por aí e nem ao menos reparamos? Alice nos fala isso em várias páginas e, da mesma forma que soa como um apelo, ao mesmo tempo ela soa conformada em ninguém reparar seu sofrimento.
Como eu já li "Lolita" de Nabokov, foi como se eu tivesse visto os dois lados da moeda, só que o Humbert-Humbert nunca fora tão cruel ou agressivo com Lolita, não que eu me lembre. A doença do personagem criado por Nabokov soa até um pouco diferente do que nos é apresentado aqui. Talvez pela forma poética que ele tratou a história. Apesar dos pesares, Lolita ainda era mimada por H. H. e era apreciada por ele também. Mas não é de Lolita que devo ou quero falar agora, isso fica para outra resenha.
"Alice", entre aspas porque esse não é o verdadeiro nome da protagonista, mas o nome que Ray escolheu, a todo o momento duvida do amanhã. Não sabe se vai comer, não sabe se vai estar viva, aliás, não sabe nem mesmo se está realmente viva agora. Afinal, quem gostaria de viver uma vida como aquela? Mas da mesma forma que era difícil continuar vivendo daquela maneira, era mais difícil ainda conseguir morrer. Só poderia morrer quando Ray permitisse.
Os capítulos são curtos e o livro não é nem tão grande, mas possuem um peso de um livro de mais de 600 páginas com parágrafos que se arrastam por páginas e mais páginas. É muito pesado para o emocional. Eu só consegui terminá-lo quando estava apática, porque das vezes que eu o peguei, se conseguia ler mais de três páginas, era muito. Cada parágrafo era acompanhado de um suspiro e um gole de café. Muita violência descrita em poucas palavras e linhas. Parecia mesmo ter sido escrito por uma menina, o que soa mais desesperador quando lemos. Soa real, porque no fundo sabemos que pode ser realmente real, senão com essa menina, mas com outras pelo mundo a fora. Outras Alices de outros tantos Rays.
Quando terminei tudo, só o que conseguia pensar em Ray, Ray, Ray... e no fantasma da pobre "Alice". Queria que ele sofresse, mas aí eu lembro que ele um dia foi como Alice e era apenas um produto da violência que sofreu e que agora transmite para as outras "Alices". Triste, mas pelo menos eu cheguei ao fim e pude me libertar.
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